''Submeter a terra, que é a ''mãe de todos nós"?
A
teologia moderna sempre viu na terra apenas aquilo que o ser humano,
segundo o primeiro relato da criação, deve "submeter" a ele. No livro do
Eclesiástico 40, 1, no entanto, a terra é chamada de "a mãe de todos
nós". É possível submeter a própria mãe, pode-se explorá-la, destruí-la e
vendê-la?
A nova teologia ecológica parte do fato de que a terra é a nossa
"casa": "A humanidade faz parte de um universo continuamente em
evolução. A nossa casa, a Terra, oferece o espaço vital para uma
comunidade de seres vivos, única no seu gênero e multiforme... Proteger a
capacidade devida, a variedade e a beleza da Terra é um dever sagrado"
(Carta da Terra, 2000).
a) Para "submeter" a terra, ela deve ser degradada pelo ser humano a
um objeto que pode ser investigado cientificamente e dominado
tecnicamente. Ela deve ser roubada de sua subjetividade e perder a sua
"alma do mundo", respeitada desde a antiguidade.
Isso aconteceu com a imagem mecanicista do mundo, que as ciências da
natureza difundiram há 400 anos [15]. Robert Boyle, ao qual remonta a
química moderna, ao invés de natureza, queria falar somente de
"mecanismo". Isaac Newton delineou a imagem do mundo como uma máquina
cósmica, que funciona como um relógio. Ela é tão perfeita que o seu
tempo pode correr para trás e para frente.
O pressuposto metafísico da imagem mecanicista do mundo é o mundo
criado de uma vez por todas, já pronto e perfeito. A ideia de Deus é o
deísmo, segundo o qual Deus, como arquiteto, criou o mundo de modo tão
perfeito que não precisa de outras intervenções divinas. Deus
contradiria a sua própria perfeição se tivesse que corrigir a sua obra
em um segundo momento com milagres. Não admira que o físico francês
Laplace, à pergunta de Napoleão sobre Deus, respondeu: "Senhor, eu não
tive nenhuma necessidade dessa hipótese". O mecanismo do mundo, se é
perfeito, pode se explicar por si mesmo.
Mas, se o mundo não é perfeito e ainda não está acabado, então a
imagem mecanicista do mundo não funciona, porque ela descreve apenas a
realidade do mundo, mas não a sua potencialidade. Olhando para a
biologia evolutiva, pode-se dizer: da potencial multiplicidade das
formas de vida, apenas uma pequena parte se desenvolveu. As formas de
vida possíveis são incalculáveis. Em uma natureza aberta ao futuro, até
mesmo as leis naturais não são eternas, mas sim mutáveis habits of
nature [16].
As novas astrociências demonstraram as interações entre os âmbitos
inanimados e os animados do nosso planeta Terra. Daí deriva a ideia de
que a biosfera da Terra forma, com a atmosfera, os oceanos e as
planícies, um sistema complexo, único no seu gênero, que possui a
capacidade de produzir vida e de criar espaços vitais. É a muito
discutida teoria de Gaia, de James Lovelock [17]. Apesar do nome poético
da deusa grega da Terra, não se pretende com isso fazer uma divinização
da Terra. Mas a Terra é concebida como um organismo vivo que produz
vida e cria espaços vitais.
Se entendemos a vida em sentido puramente biológico, então a terra
não é "viva", porque não se reproduz. No entanto, deve se dizer que ela é
mais do que viva, porque produz vida. Ela não é nem um "organismo", no
sentido em que conhecemos os organismos biológicos. Ela é mais do que um
organismo, porque produz organismos. A Terra é um sujeito de tipo
particular, incomparável e único. Não é um conglomerado aleatório de
matéria e energia, não é nem cega, nem muda. É inteligente, porque
produz inteligência.
Em um ponto específico da sua evolução, a Terra começou a sentir, a
pensar, a tomar consciência de si mesma e a merece respeito [18]. Nós,
seres humanos, somos criaturas da Terra. Portanto, não estamos diante da
Terra como seus sujeitos, mas, na nossa dignidade de seres humanos,
somos parte da Terra e membros da comunidade terrena das criaturas. Nós
mesmos somos "cocriaturas", juntamente com os outros seres vivos.
Esse sentimento cósmico de comunhão é mais amplo do que todos os
âmbitos da natureza que podemos conhecer e dominar. Por isso, hoje é
tempo de colocar no centro a santidade da Terra e de nos integrarmos
conscientemente à comunidade da Terra.
b) A teoria de Gaia corresponde absolutamente às ricas tradições
bíblicas que se referem à terra. A terra, segundo o primeiro relato da
criação, não é uma súdita dos seres humanos, mas sim uma grande
criatura, um grande fruto da criação, e nisso ela é única. Ela produz
vida, ela "produz seres vivos segundo sua espécie: animais domésticos,
répteis e feras" (Gn 1, 24). A evolução da vida e a história da terra
estão entrecruzadas uma com a outra. A terra não só fornece espaço vital
para uma multiplicidade de seres vivos, mas é também vital o seu útero
vital que lhes dá à luz.
A terra encontra lugar na aliança de Deus. Por trás da aliança com
Noé "com vocês e com seus descendentes, e com todos os animais que os
acompanham (…) com todos os animais que vivem sobre a terra" (Gn 9,
9-11), está o pacto de Deus com a terra: "Colocarei o meu arco nas
nuvens, e ele se tornará um sinal da minha aliança com a terra" (Gn 9,
13). Essa aliança introduz a terra em uma ligação direta com Deus. Esse
vínculo é o mistério divino da terra.
Os direitos da terra, na sua aliança com Deus, são reconhecidos na
legislação sabática: "O sétimo ano será um sábado, um descanso absoluto
para a terra, um sábado em honra do Senhor" (Lv 25, 4). A terra tem o
direito ao repouso sabático, para que ela possa regenerar a sua
fecundidade. Quem despreza o sábado da terra transforma o país em um
deserto e deverá deixar o país (Lv 26, 33).
O Espírito de Deus é a força criadora de vida: Spiritus vivificans.
Ele é "derramado sobre toda a carne" (Jl 3, 1), isto é, de todos os
seres vivos. Se em nós "será derramado um espírito que vem do alto",
como se diz em Isaías 32, 15.16, "então o deserto se tornará um jardim
(…) No deserto habitará o direito, e a justiça reinará no jardim.
Praticar a justiça dará paz".
Não por último, a terra esconde em si o mistério da salvação: "Que a
terra se abra e produza a salvação, e junto com ela brote a justiça" (Is
45, 8). O profeta Isaías chama até o Messias de Israel de " um fruto da
terra" (Is 4, 2).
Segundo a doutrina cristã da reconciliação, Deus, mediante Jesus
Cristo, "reconciliou o cosmos consigo" (2Co 5, 17). Deus "reconciliou" o
universo pelo fato de que ele quis "conduzir a Cristo (...) todas as
coisas, as dos céus e as da terra" (Ef 1, 10; Col 1, 20). O Cristo
ressuscitado é o Cristo Cósmico, e o Cristo cósmico é o "mistério do
mundo", ele está presente em todas as coisas. O Cristo cósmico é, enfim,
o Cristo que vem, que vai redimir o mundo e vai encher céu e terra com a
sua justiça. Segundo o evangelho apócrifo de Tomé, Cristo diz:
"Eu sou a luz, que está sobre todos.
Eu sou o todo, o todo saiu de mim
e o todo retorna para mim.
Cortai um pedaço de madeira: eu lá estou.
Levante uma pedra e me encontrareis" (Logion 77).
Notas:
15. M.WHITE, Isaac Newton. The Last Socerer, Londres, 1998.
16. R. SHELDRAKE, Das Gedächtnis der Natur. Das Geheimnis der Enstehung der Formen in der Natur. München, 2001 9, 9-15.
17. J. LOVELOCK, Gaja – A New Look at Life on Earth. Oxford, 1979;
Id., The ages of Gaja. A Biography of our Living Earth. Oxford, 1988 ;
Id., The Revenge of Gaja. Why the Earth is Fighting Back – and how we
can still save Humanity. Londres, 2008. Sobre a discussão, cfr. CELIA
DEANE-DRUMMOND, God and Gaja. Myth or Reality?, in Theology 95 (1992)
277-285.
18. L. BOFF, La terra come gaia: una sfida etica e spirituale, in Concilium 3 (2009) 33-44.
Jürgen Moltmann, Teologi@Internet, 21-05-2012, reproduzido pelo IHU-Unisinos.