NOSSA SENHORA, ROGAI POR NÓS!
domingo, outubro 22, 2017
segunda-feira, dezembro 12, 2016
Oração
do Abandono (Charles de Foucauld)
Eu me abandono a Ti,
Faz de mim o que quiseres.
O que fizeres de mim,
Eu Te agradeço.
Estou pronto para tudo, aceito tudo.
Desde que a Tua vontade se faça em mim
E em tudo o que Tu criastes,
Nada mais quero, meu Deus.
Nas Tuas mãos entrego a minha vida.
Eu Te a dou, meu Deus,
Com todo o amor do meu coração,
Porque Te amo
E é para mim uma necessidade de amor dar-me,
Entregar-me nas Tuas mãos sem medida
Com uma confiança infinita
Porque Tu és…
Meu Pai!
Fonte:
Pe. Inácio Jose do Vale Vale
“Fazer-se todo para todos para tudo dar a Jesus”
É outra característica que deve distinguir a nossa vida. Uma
vida que, como a de Jesus Cristo, se torna dádiva para bem de todos os homens,
especialmente dos pobres com que Jesus se identificou (cfr. Mt 25, 31-46).
Fomos chamados, até mesmo à luz do testemunho e doutrina de Charles de
Foucauld, a revalorizar a nossa presença missionária na fraqueza e na eficácia
evangélica dos meios pobres. «Os meios de que Ele (Jesus) se serviu no
presépio, em Nazaré, na cruz, são: pobreza, abjecção, humilhação, abandono,
perseguição, sofrimento e cruz. Eis as nossas armas, as mesmas do Esposo
divino, que nos pede para deixarmos continuar em nós a sua vida, ele o único
amante, o único esposo, o único Salvador e até mesmo a única Sabedoria e única
Verdade…».
“Tornar-se uma Maria viva e operante”
«Eu faço o propósito de guardar em mim a vontade de
trabalhar para me transformar em Maria para me tornar uma outra Maria vivente e
operante».
Também o nosso modo de viver e trabalhar no meio do povo
deve encontrar na experiência mariana de Charles de Foucauld mais um empurrão
para incarnar aquele estilo de consolação “materno” e “missionário” que
aprendemos com o nosso Beato Fundador.
Evangelização libertadora
«Quem pretender viver segundo a espiritualidade de Nazaré
deverá estar consciente de que ela é a base da sua existência, quer se encontre
no deserto quer na missão apostólica. Quer dizer que não pode haver apostolado
sem Nazaré nem deserto sem Nazaré, nem Nazaré sem deserto nem apostolado».
Para que se dê uma inserção em qualquer lugar da terra,
Charles acredita que o cristão deverá partir sempre do modo de agir de Deus,
tal como aparece nos Evangelhos, e acolher e apreciar tudo o que de bom e
peculiar existe em cada povo e cultura.
Um santo à nossa medida
“Jesus, só Jesus, Jesus em tudo, Jesus sempre”.
É convicção profunda do beato Charles de Foucauld que Jesus
Cristo deve estar no centro da nossa vida para que possamos ter gosto em
conhecê-lo, deixar-nos seduzir por ele, segui-lo e imitá-lo, levar a nossa cruz
atrás dele. Desta forma, permitimos-lhe que nos diga a verdade a respeito da
nossa vida, dos nossos desejos, dos nossos projetos e da nossa história. E isto
tem de acontecer mesmo à custa do martírio, que ele não excluía: «Pensa que
terás de morrer mártir, despojado de tudo, estendido por terra, nu,
irreconhecível, coberto de sangue e feridas, violenta e dolorosamente
assassinado…e deves desejar que seja hoje». Assim foi com ele, que morreu
“violentamente e dolorosamente assassinado” tal como sempre tinha desejado,
para se configurar com Cristo até na morte.
“Ser caridosos, mansos, humildes com todos: é isto que se
aprende de Jesus”.
A exemplo de Charles de Foucauld, também nós somos chamados
a viver um novo modo de ser Igreja, sacramento de salvação para a humanidade.
Na fraternidade evangélica, antes de mais, que não é apenas uma fraternidade
reunida no amor à volta de Jesus e com Jesus, mas uma fraternidade que faz da
caridade, tanto por dentro como por fora, o mandamento supremo até “fazer da
salvação do próximo, bem como da salvação pessoal, a grande tarefa da vida”.
Este ideal só é atingível se formos capazes de “ver um irmão
em cada ser humano”. Se vivermos superficialmente, só acolhemos o outro
superficialmente. Se vivermos em profundidade, que é onde Deus habita,
acolheremos o outro com profundidade, ou seja, como irmão e filho do mesmo Pai.
Somos chamados a viver uma vida comunitária que saiba
apreciar e valorizar a vida ordinária, diária, o lugar onde realizaremos
santidade. Uma santidade que se manifesta na comunhão profunda com Deus, no
trabalho e na proximidade com as pessoas para tornarmos a nossa vida mais
semelhante à de Jesus nos trinta anos que passou em Nazaré. Ele ensina-nos a
não fugir ao aspecto quotidiano e ordinário da nossa existência, à procura de
experiências extraordinárias. Só se soubermos viver de maneira extraordinária e
com amor o “ordinário” é que conseguiremos que os nossos relacionamentos se
tornem cada vez mais justos, mais verdadeiros, mais fraternos e mais ricos em
humanidade e ternura para com os outros.
“Ler e reler incessantemente o Santo Evangelho”
O Beato Charles de Foucauld converteu-se a Deus através do
Evangelho. A procura vocacional e a sua vida espiritual como um todo
desenrolaram-se até à morte sob o signo do Evangelho meditado, ruminado,
assimilado e vivido. Nutria um grande amor pelo Evangelho que via não como um
estudo de normas e leis, mas como encontro com “o esposo, o namorado, o
bem-amado”, para assim lhe poder “agradar, servir, glorificar, consolar, como
deseja que tudo seja feito” A vida de comunidade e o caminho do discipulado,
nas suas várias modalidades e critérios, juízos e valores, devem passar pela
peneira da Palavra. «Ler e reler incessantemente o Santo Evangelho para ter
sempre diante da mente as ações, as palavras, os pensamentos de Jesus para
poder pensar, falar e agir como Jesus, seguir os exemplos e os ensinamentos de
Jesus e não os exemplos e os modos de fazer do mundo, em que recaímos tão
rapidamente mal afastamos os nossos olhos do divino Modelo».
Na vida de qualquer comunidade missionária, a primazia do
Evangelho deve assemelhar-se à semente que germina e produz fruto no
escondimento e no silêncio, para depois de tornar alimento abundante para todos
aqueles que têm fome.
Amor à Igreja
«Apego inviolável à Igreja, que é Esposa de Jesus, em que
ele vive. Ele é a sua alma, ama-a como sua esposa […]. Apego a tudo o que dela
vem, das suas instituições, dos seus ritos, dos seus ministros […]. Apego ao
Santo Padre, seu chefe e representante. Rezarei muitíssimo pelo Santo Padre,
pelas suas intenções […]. Quanto mais se ama a Igreja, tanto mais possui o
Espírito Santo que a anima. Quanto mais se ama a Igreja, tanto mais se ama
Aquele de que ela é corpo, Nosso Senhor Jesus Cristo».
Obediência ao Diretor Espiritual
«A escolha do diretor espiritual tem uma importância vital
porque tal for o mestre, tal será o discípulo. Deve ser uma pessoa devota,
prudente, instruída e perita. Uma vez feita essa escolha depois de ter rezado
ardentemente a Deus, devemos confidenciar-lhe a nossa vida, pedir-lhe conselho
e ser obedientes».
O Beato Charles de Foucauld teve sempre um relacionamento
profundo e fiel com o seu diretor espiritual – como a de filho em relação ao
pai. Quando ele morreu, escreveu a um amigo dizendo-lhe que o seu Padre Espiritual
fora um enxerto paciente do amor de Jesus no mais íntimo do seu ser.
Oração e fecundidade contemplativa
«Quem desejar viver segundo a espiritualidade de Nazaré deve
integrar-se no projeto pastoral da Igreja local, procurando tornar-se útil
segundo a sua vocação, para além de ser solidário sobretudo com aqueles que se
encontram nos lugares mais difíceis de missão e de colaboração fraterna».
O Charles estava convencido de que há um tipo de fecundidade
que não depende da ação: e é aquela que possui espírito contemplativo, que
procura viver o espírito de Nazaré, a realidade concreta até ao fundo, no
momento atual, que dá importância aos relacionamentos fraternos e de amizade,
bem como à gratuidade do dom.
Ele mesmo fazia experiência contínua disso vivendo “a vida
de Nazaré” com os nómadas mais isolados, entre os mais pobres de Beni-Abbés. Em
1911 estabeleceu-se em Asekrem por se tratar de um lugar de passagem das
caravanas, que assim lhe permite cultivar relacionamentos com os Tuaregues e
estabelecer uma profunda amizade com eles.
Imitação do “nosso muito amado Senhor Jesus”
«Quem quiser viver segundo a espiritualidade de Nazaré terá
como regra perguntar-se a todo o momento sobre que pensaria, diria e faria
Jesus se estivesse no seu lugar, e fazê-lo. Esforçar-se-á continuamente por se
tornar cada vez mais semelhante ao Nosso Senhor Jesus tomando como modelo a sua
vida de Nazaré, que nos serve de exemplo para todas as situações». O beato
Charles de Foucauld, desde que se converteu, recebeu a graça duma profunda
amizade com Cristo, a pontos de não ter senão um desejo: o de ser como Ele. É
ele próprio quem o diz numa sua meditação, cinco meses antes da sua morte:
«Ficar sempre em último lugar: “Quando vos convidarem a um banquete, sentai-vos
sempre no último lugar”. Foi isto que Ele fez, ao participar no banquete da
vida, e fê-lo até à morte».
Adoração eucarística
A Eucaristia, que marcou a sua vida desde o momento da
conversão, sempre permaneceu como centro da sua oração. Passava longas horas em
adoração diante da Presença eucarística, na companhia do seu “muito amado irmão
e Senhor Jesus”. Pouco a pouco, diante da Eucaristia, foi amadurecendo na sua
vocação sacerdotal, para oferecer este “divino banquete…aos estropiados, aos
cegos e aos pobres, quer dizer, às almas que não têm sacerdotes”. Construiu em
Beni-Abbés uma capela e decorou-a ele próprio, desenhando na tela um Cristo que
abre os braços a receber, abraçar e chamar todos os homens e a dar-se a eles. É
naquele sítio que ele passa longas horas, do dia e da noite, em adoração ou em
meditação. Vive com ele na sua habitação e mantém com Ele um diálogo contínuo
de amigo para amigo, um diálogo que continua ao longo da noite ou nas viagens
pelo deserto.
Opção preferencial pelos pobres
«A opção pelos mais pobres será a tarefa da minha vida.
Envidarei todos os esforços sobretudo pela conversão daqueles que são
espiritualmente mais pobres, isolados, cegos, as almas mais abandonadas, as
mais doentes, as ovelhas mais desesperadas».
Quando em Beni-Abbés, poucos dias antes da sua chegada, se
deu conta da miséria material e moral do lugar, decidiu que o seu primeiro
trabalho seria “ajudar os escravos” que eram tratados com muita dureza pela
população. O segundo trabalho seria acolher os viajantes pobres. Por fim, iria
oferecer instrução escolar às crianças que ficavam sozinhas todo o dia.
Optar pelos pobres não é porém a mesma coisa que amar os
pobres. Optar por eles equivale a viver no seu mundo e manifestar-lhes um amor
crítico, solidário e empenhado. O Beato Charles de Foucauld estava convencido
de que é preciso não apenas ter grande amor pelos pobres, mas sim ter um amor
que parte dos pobres e estabelece com eles uma aliança estável. E assim,
perante o seu confessor, fez voto de nada possuir para seu uso pessoal senão
quanto um pobre operário também tivesse. E cultivava no coração o projeto de
fundar uma nova Congregação com a finalidade de «viver o mais exatamente possível
a vida de Nosso Senhor, vivendo unicamente do trabalho das próprias mãos […],
não possuindo nada […]. Não formar senão apenas pequenos grupos […], e
espalhar-se sobretudo por países não cristãos».
A direção espiritual
No início da sua procura de Deus, Charles de Foucauld
aspirava à fé como se fosse uma certeza racional: «Esta religião poderia não
ser uma loucura…talvez seja a verdade…Lancemo-nos para o estudo desta religião:
arranjemos um professor de religião, um padre instruído e vejamos que virá cá
para fora, e se há razão para acreditar no que ele diz». Logo foi procurar um
“mestre”, encontrando-o na pessoa do Padre Henri Huvelin. Não tinha vontade de
se confessar; apenas queria ter informação sobre a religião católica. Mais
tarde, num dos seus retiros espirituais viria a escrever, ao falar a Deus do
seu mestre de espírito: «Puseste-me sob as asas deste santo e aí fiquei: com as
suas mãos tu me levaste desde então e não tem havido senão uma graça atrás da
outra: eu pedia lições de religião mas ele fez-me pôr de joelhos e
confessar-me; e enviou-me logo a fazer a comunhão. […] Desde então que só tem
havido uma graça após outra». Aquele venerando ancião dirigiu-o sempre com mão
firme. Era um homem de Deus, um homem que «se tornara oração», como o próprio
Foucauld veio a dizer mais tarde.
A santidade é sempre a força que maior poder de atração
exerce sobre as pessoas. O Charles considera a submissão ao diretor espiritual
uma garantia de segurança na difícil procura da vontade divina. Expõe os seus
sentimentos em cada carta que lhe escreve, abre a sua alma o mais possível,
tenta colocar-se num estado de indiferença e promete renunciar a tudo se o seu diretor
espiritual lho pedir, terminando sempre com uma confissão de obediência e com atos
de abandono ao juízo do seu diretor.
Disponibilidade para a conversão contínua
É impressionante a radicalidade da conversão de Charles de
Foucauld. Quebra com o seu passado, decidido a colocar-se radicalmente ao
serviço de Deus. Nunca foi um homem de meias medidas. Sempre quis ir até ao
fundo das coisas em tudo. Até na sua conversão: «Não procuremos corrigir-nos a
meias, ou converter-nos a meias: isso será impossível. É preciso chegar a
converter-nos completamente, se não nunca nos converteremos». Afinal trata-se
de passar dum querer individualista à adesão total e livre ao projeto de Deus:
«Tudo me diz para me converter; tudo me canta a necessidade de me santificar;
tudo me repete e grita para que, se um bem que eu quero não aparecer, será
apenas por minha culpa; e então eu tenho que me despachar na conversão».
No seu itinerário de conversão, o Charles só tem um modelo:
Jesus. «Segue-me, apenas a mim…Não venhas a Betânia para me ver a mim e também
a Lázaro; vem para me ver, só a mim… Pergunta-me o que eu fazia; ‘Examina as
Escrituras’ (Atos, 11); observa os santos, não para os seguires, mas para veres
como me seguiram e pega, de cada um, aquilo que achares que vem de mim, ou é
imitação de mim…e segue-me, só a mim».
Desde este momento, O Charles apenas toleraria um desejo: o
de responder a este amor de Deus, impelido por uma necessidade desmedida de o
imitar: «Eu amo Nosso Senhor Jesus Cristo; amo-o e não poderei levar uma vida
diferente da dele».
Espiritualidade radical e profética
O núcleo central da espiritualidade de Charles de Foucauld é
a “espiritualidade de Nazaré”. Nazaré é um lugar, uma experiência, um símbolo
na sua espiritualidade. A investigação, por vezes bastante fiel, de muitos
exploradores do seu itinerário espiritual, parece ser unânime em afirmar que
viver “como pequeno irmão de Jesus em Nazaré” é certamente a constante que
alumia a sua aventurosa vocação religiosa e unifica o itinerário da sua
maturação eclesial. Ser um pequeno irmão de Jesus equivale a dar vida a uma
relação teologal que se exprime numa coabitação fraterna com o Senhor em prol
dos outros.
Os elementos componentes da espiritualidade de Nazaré podem
sintetizar-se da seguinte forma:
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